quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Simultânea Vescovi/Kasparov x Eider Cruz - Empate! Parte II



Não adianta. Enxadrista é enxadrista e não muda, nem aqui nem na Russia. Quando há peças postas sobre as 64 casas do tabuleiro é impossível conter o turbilhão de idéias e ensaiar uma boa e rejuvenescente peruada.

Mas a minha saga continua e ainda há muito jogo pela frente. Claro que quando tomei em c5 a pergunta que me vinha frequentemente na cabeça era "o que será que ele viu que eu não vi?" Se eu tivesse visto a reação do Kasparov mostrada nas fotos do post anterior, ou no vídeo abaixo, eu poderia ter ficado mais tranquilo. (Atenção a partir do 1min30s)


19. dxc5 e5 20. Bxh6 Aqui Vescovi perdeu o compasso. O conceito é simples: o peão central de e5 vale muito mais do que um peão de h6. Portanto era necessário, por exemplo, 20. Cxe5 Cxe5 21. Bxe5 Txe5 22. Ce2 com chances iguais para ambos os lados.

20. ... e4 21. Dd4 exf3 22. Bg5 fxg2 23. Tfc1 Ce4 Também é bom, mas melhor ainda é 23. ... Ch7 seguido da tomada de peão em c5. Em algumas linhas o cavalo de h7 ficará excelente colocado em e6 via f8. 24. Bf4 Não é nada fácil ver na velocidade de uma simultânea a linha 24. Cxe4 Txe4 25. Ta1 Txd4 26. Txa5 Com boas possibilidades de salvar a partida. O lance do texto dá a possibilidade das pretas de tomar imediatamente o peão de c5, sem nenhuma compensação para o branco, visto que o cavalo pode na sequência situar-se muito bem em e6. Eu vi alguns fantasmas na posição e procurei uma linha que me levasse seguramente ao empate. Não há explicação para essa minha decisão, a não ser as de ordem psicológica. Uma pena.

24. ... Cxc3? não há como não colocar uma bela interrogação nesse lance. 25. Dxc3 Te4 Ao receber meu última lance, Kasparov respirou aliviado e disse com ar de quem acaba de escapar de uma enrrascada: "well, the worst is over" (bem, o pior já passou). Estranho ele falar em tom audível essa frase e muitas outras em inglês como se pensasse que ninguém poderia entendê-los. Pelo menos eu e o Dr. Flávio que estava ao meu lado podemos entender muitas coisas, as quais ele e eu comentávamos e ríamos disfarçadamente. 26. Dxa5 Txa5 27. Bd6 Tc4 28. Txc4 dxc4 29. Tc1 Cxc5 30. Txc4 Cb7 31. Txc6 Cxd6 32. Txd6

Ao invés de entrar com um peão a mais no final, entrei com um peão a menos.
Eu sou um fenômeno.



32. ... Tg5 33. Td4 g6 34. Tg4 Ta5 35. Rxg2 Rg7 36. h4 Tb5 37. Tb1



37. ... Rg3 É impossível deixar passar o que sucedeu após o Vescovi ter feito esse lance. O maior jogador de todos os tempos peruando na minha frente e ainda errado é algo que não é qualquer um que pode se orgulhar de ter visto pessoalmente e ainda por cima na sua própria partida.

Quando Vescovi moveu seu rei para frente, pude perceber o seguinte diálogo:

K. Why not h5? (Por que não h5?)
V. Then King h6. (Então Rh6)
K. ohhh (ahhh)

Surrealmente extraordinário. Se é que dá pra se falar assim.

38. ... Ta1 39. Tc5 Tg1+ 40. Rh2 Tg4 41. Rh3 Tg1 42. e4 Th1+ 43. Rg3 Tg1+ 44. Rf4 Th1 Tablas

Depois do meu 44º lance, Vescovi ofereceu empate e eu prontamente aceitei. Após tê-lo cumprimentado fui assinar a planilha, mas de relance senti a presença de Kasparov muito próxima e achei que não seria educado não cumprimentá-lo também. Ergui minha mão em direção a ele, carregando inconscientemente todo significado que esse gesto carrega no término de uma partida de xadrez. Kasparov sentiu seu sentido lancinante e num susto, com uma gaguejada que lhe é característica, disse: "I didn't play the game" (Eu não joguei a partida). Eu recolhi parcialmente minha mão esperando que dessa vez a dele viesse de encontro e disse que o primeiro lance tinha sido dele e que fora o mais forte. No meio de boas risadas e muita desconstração ele me cumprimentou com aparente bom humor.



Nesse vídeo abaixo, dá pra se ver claramente o momento a partir do 2min.






Baixar PGN da Partida

Para mim foi um sonho participar dessa simultânea. Agradeço muito ao Reitor da UFRGS Carlos Alexandre Neto que lembrou do meu nome quando surgiu a vaga e a todos que tornaram esse evento histórico realidade. Espero que tenham gostado das postagens e sintam-se à vontade para comentar.

Créditos das fotos:

IXC
Luciano Enzweiler
Minha irmã Natália

Mais informações:

Blog do IXC
Marcos e o Xadrez
Xadrez Gaúcho


terça-feira, 13 de setembro de 2011

Simultânea Vescovi/Kasparov x Eider Cruz - Empate! Parte I

Foram tantas coisas que aconteceram nessa última semana no Xadrez Gaúcho (e por que não Brasileiro?) que nem mesmo sei se posso fazer um relato cronológico consistente, coeso e conciso. Mas prometo que vou tentar.

Como de costume nessa época do ano em Porto Alegre, o clima estava estranho. Frio e sol forte: Ameno. Ideal para uma tarde que entra para a história. E muito gente esteve no Chalé da Praça XV para assistir de perto a lenda viva do Xadrez na tarde de 06 de setembro de 2011, véspera de feriado. Com certeza mais gente do que todos imaginavam. Inclusive pôde-se perceber claramente a surpresa do Vescovi e do Kasparov quando chegaram ao salão dos jogos. Olhavam para as pessoas do público que apertadamente disputavam um melhor ângulo para vê-los e se entreolhavam espantados.





Puxando a brasa para o meu assado, esteve lá minha mãe, meus irmãos e irmãs, meu sobrinho de apenas dois meses, minha namorada, minha cunhada, meu cunhado, amigos e colegas da faculdade. Alguns que curtiram muito o evento, mesmo sabendo pouco ou nada de xadrez. Quando o meu nome foi apresentado, se ouviu uma forte vibração do lado de fora. É sempre bom saber que se é muito querido pela pessoas que nos cercam. =)


Sentei na cadeira que me era destinada para jogar a partida. Peguei a caneta e num gesto mecânico, tantas vezes repetido, puxei a planilha e preenchi a data rapidamente, mas quando comecei a preencher o nome do meu adversário, foi como seu eu tivesse tomado um choque. Parei de pronto, olhei para os lados, para meus companheiros vizinhos e parceiros na empreitada, com o coração batendo no compasso de Caissa e disse: "Que coisa estranha escrever Kasparov na planilha". Não consegui me expressar de outra forma, acostumado que sou em escrever o nome de pessoas conhecidas, comuns, atingíveis, tocáveis. Foi uma experiência fora da realidade perceber que o que até o momento fora para mim um ícone, um símbolo, uma lenda que lia nos livros, nas incontáveis horas de estudos e fruição da arte do xadrez, que me encantava pelos seus lances, suas idéias novas e pela sua história, estaria dentro de instantes movimentando as mesmas peças que estavam à minha frente.

Mas como já tinha sido previsto, Kasparov jogou apenas o primeira lance de cada partida. Foi intercalando 1.e4 e 1. d4 nos tabuleiros, mas quando chegou no tabuleiro meu e do Felipe, ele emendou sem vacilar duas vezes 1. d4. Estranha coincidência - será que ele tinha combinado alguma coisa com o Vescovi? Nunca saberemos.

Depois disso ele foi dar autógrafos e entrevistas para os muitos fãs e jornalistas ali presentes. Enquanto isso, Vescovi ia de mesa em mesa firmemente realizando seus lances. Postura ereta, rosto tranquilo, simpático e amistoso de olhar impenetrável. Mudou um pouco de expressão a partir do 15º lance de nossa partida, vejamos uma pequena análise ilustrada:

1. d4!!! O primeiro lance mais forte que já recebi na vida.


Fiquei com medo de me machucar com os estilhaços.


Felicidade.

1.... Cf6 2. c4 e6 3. Cf3 d5 4. Cc3 Be7 5. Bf4 c6 6. e3 0-0 7. Dc2 Cbd7 8. Td1 a6 9. c5 Quem sou eu pra criticar um lance de um GM, ainda mais um da envergadura do Vescovi, mas não gostei desse lance. A razão me parece simples: o rei do branco ainda está no centro e o bispo-rei ainda se encontra na sua casa original, ou seja, há um atraso que salta aos olhos no desenvolvimento na ala do rei. Com 9. c5 o preto já começa a bater num ponto de ruptura importante em b6, ganhando tempo no desnvolvimento de sua ala da dama. Os problemas de desenvolvimento do preto parecem ser facilmente resolvidos, o que já é uma vitória.

9. ... b6 10. b4 a5 11. a3 h6 12. Bd3 axb5 13. axb5 bxc5 14. bxc5 Da5 melhor é Ta3, seguido de Da5. 15. 0-0 Ba6 16. Tb1 Nesse momento, Vescovi quase que joga um lance que colocaria a partida imediatamente em sérios apuros. Ele foi com sua torre até a1 e parou ela por um segundo, quase largando a peça, mas calculou em velocidade instântanea - acredito que mais com a força de sua intuição do que pelo cálculo matemático puro- 16.... Bxd3 17. Dxd3 Dxa1 18. Txa1 Txa1 19. Cd1 e voltou sua torre uma casa para o lado: então eu pude voltar a respirar. Eis a prova irrefutável:


Casi, casi!
Perceba o semblante de quem não gostou do que viu.


16. ... Bxd3 17. Dxd3 Te8 Esse é um lance chave. Embora ele não faça nada de fato importante, tem a virtude de deixar as coisas como estão, "mantendo" o status quo da posição (talvez já mantenha também um olho no apoio de um quase impossível e5 no futuro) e ameaçar o imediato Bxc5, caso as brancas não façam nada a esse respeito. 18. h3 E vescovi não fez. Acredito que ele não tenha visto a tomada em c5 e como eu tinha feito no lance anterior, realizou um lance de espera que tem a virtude de guardar a casa h2 para o bispo, caso as negras jogam algo como Ch5 em algum momento.

18. ... Bxc5 Agora a partida começa a ficar difícil para Vescovi. Ainda mais se formos ver pelo lado da simultânea. Mesmo sendo um Grande Mestre de tal envergadura, ele precisa de concentração para encontrar a solução de alguns problemas. E nesse caso ele ainda tinha que lidar com mais 19 mesas, sendo que a partida do Felipe Menna Barreto parecia que ia ser longa. Aqui vai uma sequência de fotos esclarecedoras:

Vescovi e Kasparov contemplam 18. ... Bxc5


Vescovi responde e Kasparov sente que a coisa tá feia.

Continua incrédulo olhando para a partida.

E permance observando mesmo com o Vescovi já longe.

Enquanto Vescovi refletia sobre o lance que acabara de receber, Kasparov olhava pra nossa posição, fazia cara de que não estava gostando nada e sussurrava algumas palavras indecifráveis no ouvido de Vescovi, às quais ele respondeu claramente da seguinte maneira. "We are going to find something.!" (nós vamos encontrar alguma coisa). Me senti tão orgulhoso com esse "Nós" que mal pude caber em mim. O melhor jogador do Brasil e o melhor de todos os tempos do mundo unidos para me derrotar. Acho que eu já poderia anunciar minha aposentadoria dessa minha curta carreira de enxadrista realizado, não?


Posição após o 18º lance das pretas.


To be continued...

sábado, 3 de setembro de 2011

Kasparov em Porto Alegre - Simultânea

O mais importante da minha conquista nos jogos universitários foi acontecer dias depois. O tetra campeonato do Xadrez da UFRGS saiu na capa principal do site dessa intituição e pelo título universitário estadual o Reitor Carlos Alexandre Netto me convidou para assistir a palastra de Kasparov no Fronteiras do Pensamento e, além disso, indicou o meu nome aos patrocinadores para fazer parte da simultânea que Kasparov dará terça-feira dia 06/09 às 16h no Chalé da praça XV: o sonho de uma vida se realizando.

Garry Kasparov


Abaixo, vídeo de G. K. dando uma simultânea em 2009:



Essa vai ser a linha da Siciliana que eu vou jogar contra ele, quem mandou me ensinar?



Brincadeiras à parte, gostaria de deixar aqui o convite para todos que gostam de xadrez, ou tem curiosidade a respeito desse jogo-arte-ciência, compareçam no Chalé da praça XV na terça-feira às 16h. É um evento simplesmente imperdível.


Jogos Universitários Estadual - Ouro!

A competição aconteceu sábado passado, dia 27/08 e contou com a participação de 10 jogadores de diferentes universidades do Rio Grande do Sul. A UFRGS manteve a superioridade dos últimos anos e pela 4ª vez consecutiva conquistou ouro na modalidade XADREZ. A diferença foi que nesse ano o campeão individual, esse que vos fala, também é estudante da UFRGS e, portanto, terá a oportunidade de representar o Xadrez Unversitário Gaúcho nos JUBs (Jogos Universitários Brasileiro) no início de Novembro em Campinas.


A surpresa do torneio foi o jogador Sergipano Arthur Patroclo (2124 FIDE) da UFPEL. Não o conhecia e não tinha nem ideia de sua força e estilo de jogo, portanto, era o jogador que eu mais temia dentro da competição. Como o torneio foi no sistema Shuring (vulgo todos contra todos), acabamos jogando na primeira rodada na qual sem grandes sobressaltos consegui garantir uma boa vitória, já que o ataque índio do rei do meu adversário não se desenvolveu como o esperado.

Na segunda rodada joguei contra outro forte Pelotense da UFPEL, Daniel Pertuzatti (2009 FIDE). Daniel cometeu grave erro já na abertura que me concedeu uma vantagem posicional suficiente para eu encaminhar a partida com segurança até a vitória.

Na segunda rodada eu já tinha vencido os dois jogadores que teoricamente eram os mais fortes da competição, mas ainda eu tinha que enfrentar mais 4 para garantir o título. Com certeza, esses quatro jogadores não iriam me facilitar as coisas, muito pelo contrário, jogaram firmes e destemidos, a fim de evitar a minha disparada. Na terceira rodada joguei contra o Giuliano da UNIFRA de Santa Maria mesmo. Jogando em casa, Giuliano de pretas conquistou o empate depois de ter alojado um cavalo inexpugnável em d5. Eu nada pude fazer para evitar.

Nesse momento minha vantagem para Patroclo tinha diminuido para 0,5 ponto já que ele havia vencido Pertuzatti e qualquer vacilo de minha parte poderia colocar tudo a perder. Na quarta rodada joguei contra Paulo Mendonça da UFRGS e venci uma boa partida. Na quinta, a mais tensa de todos, pois garantiria o título, joguei contra Guilherme Teixeira, outro companheiro da UFRGS. Saí, de brancas, com uma posição bastante ruim na abertura e concentrei todas as minhas forças para que ela não entrasse em colapso. A medida que o tempo ia passando o ponteiro do relógio do meu adversário, que queria muito vencer, ia subindo e no apuro de tempo cometeu um erro que não passou em branco e eu pude confirmar a vitória.

Como tudo que vale a pena, foi suada essa conquista. Será um felicidade para mim poder viajar para jogar um torneio bastante forte em Campinas representando a UFRGS e o Xadrez do Rio Grande do Sul. E quem sabe não é uma oportunidade de se iniciar um trabalho acadêmico de pesquisa sobre xadrez na educação.

Resultados Completos:

Categoria Masculino

1º lugar – Eider Tiago da Cruz – UFRGS
2° lugar – Arthur Ruiz Patrolo – UFPEL
3° lugar – Giuliano Machado – UNIFRA
4º lugar – Daniel Becker Pertuzatti – UFPEL
5º lugar – Paulo Renato Trisch Mendo – UFRGS
6º lugar – Guilherme Vargas Teixeira – UFRGS
7º lugar – Diego Homrich Moritz – UFSM

Categoria Feminino

1° lugar – Patrícia Porto Almeida – UFSM
2º lugar – Mitieli Majewski Correa - UNISC
3° lugar – Ana Caroline Lopes da Cruz – UFRGS

Resultado geral por instituição de ensino

1° lugar – UFRGS
2° lugar – UFPEL
3° lugar – UFSM

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Peões na Sétima - Ronald Câmara


Por Dr. Antônio Fabiano Ferreira Filho

Prezados Amigos,

Temos a grande felicidade de disponibilizar online para todos os enxadristas de nosso país uma preciosidade em forma de livro. Trata-se do Livro de crônicas enxadrísticas “Peões na Sétima”, de autoria do Dr. Ronald Câmara, campeão Brasileiro de 1960 e 1961.


Clique AQUI para fazer o download!

O Dr. Ronald Câmara foi também durante quatro anos presidente da Zona Sul-Americana da "Fédération Internationale des Échecs" - FIDE. Durante esse período deu extraordinário impulso à prática do xadrez no Brasil, destacando-se, entre as suas realizações, o memorável Torneio Interzonal de Petrópolis em 1973.

Max Euwe e Dr. Ronald Câmara durante o Interzonal de Petrópolis em 1973.

O livro Peões na Sétima está esgotado e, graças à generosidade de sua esposa, a Sra. Rita Câmara, podemos todos agora desfrutá-lo em sua íntegra.

Esperamos também em breve poder disponibilizar as crônicas enxadrísticas publicadas pelo Dr. Ronald Câmara nas décadas de 70 e 80 e que são um testemunho e legado dos grandes duelos enxadrísticos dessa época áurea do xadrez.

Desejamos a todos uma ótima leitura!


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

III Aberto DC Shopping - 3º Lugar

71 enxadristas! um excelente número que ainda pode ser maior nas futuras edições (se houver espaço), pois o trabalho dos organizadores tem sido irretocável. Boa arbitragem, emparceiramento no telão, premiação em dinheiro, ambiente competitivo, mas de muita confraternização, divulgação completa e rápida dos resultados, além de muitas fotos. Que mais um bom enxadrista poderia querer?




O torneio para mim foi muito produtivo. Joguei 4 partidas muito boas - uma muito aguda na terceira rodada contra o Abrão Spritzer na qual a atividade das minhas peças parecia imparável, mas quando meu ataque não deu os frutos esperados, eu fiquei perdido graças aos subsequentes lances fortes do meu adversário. No entanto, Abrão acabou cometendo sérias imprecisões ao alcançar o apuro de tempo e eu pude assegurar o empate. Na quarta rodada enfrentei novamente de pretas o Dayan que vem demonstrando excelente preparação técnica nas suas partidas. Jogamos nosso duelo teórioco na Najdorf - dessa vez ele jogou um plano que na partida mesmo eu senti que não poderia ser bom, mas não consegui achar refutação em cima do tabuleiro, talvez se eu tivesse mais tempo teria tido mais sucesso. Na sexta contra o forte jogador Guilherme Genro, consegui de pretas vantagem já na abertura mediante um erro do meu adversário. (1. e4 c5 2. Cc3 d6 3. f4 Cf6 4. Cf3 e6 5. Bc4 Be7 6. 0.0 0.0 7. f5? d5!) A partir daí eu consegui jogar com força necessária até chegar ao arremate.

Leonardo Machado, Eider Cruz e Paulo Dutra

Na última rodada, joguei contra Paulo Dutra - ele jogou a Benoni Moderna e logo de cara consegui uma posição muito promissora que se tornou ganha com o decorrer dos lances. No entanto, Dutra demonstrou um espírito de luta muito grande e conseguiu empatar com xeque perpétuo, depois de iniciar o ataque clássico da Benoni na ala do rei.

Mais uma vez agradeço e parabenizo os organizadores pelo torneio. Realmente brilhante.

Mais informações e fotos - Xadrez Gaúcho






terça-feira, 2 de agosto de 2011

Jogos Regionais Barra Bonita São Paulo - Ouro!

Salve, salve, paulistada gente fina. Bruno Rogani, Carol, Marcel, Ângelo, as geminhas Kate e Kelly, Bruno Estevam - o invicto!, NadiR, Zazá bom de bola, Gabriela , Bruno - o guru espiritual (como tem bruno!) e o motorista bom de briga que tomou 3 anos de suspensão por ter ficado olhando a briga do banco de reservas. Todos personagens que fizeram de um simples torneio de xadrez um evento com muitas histórias a serem contadas. Nesse sentido pude perceber que a concentração dos jogadores de xadrez dentro do universo miúdo de seu próprio ego não é de fato uma constante.


Prata das meninas no Feminino.
Medalha como auxiliar técnico.

Amigos, xadrez e cerveja. Exatamente nessa ordem. Não havia como o ouro não ser de Igaraçu do Tietê. Dos 20 pontos disputados, perdemos apenas 2 - 1 empate na mesa 2, outro na 4 e uma derrota na 3 - a mesa 1, que tinha como defensora O Gaúcho, terminou a competição com 5 em 5 com direito a essa partidaça na rodada decisiva contra São Manoel:





Analisando o campo minado depois de 14. ... d5!


Dizem que o 21. ... Bxh4+ deu uma leve deslocada no eixo da terra.


Ficamos hospedados no alojamento com atletas de outras modalidades, principalmente com o pessoal do Volei e do Futsal. Numa das noites, depois de algumas cervejas, o xadrez foi a maior sensação entre todos e os jogos amistosos de 1min - com direito inclusive a narração - entre eu e o Ângelo atrairam muitos espectadores. O resultado, como mostram os vídeos, não poderia ser mais hilário.





Analisando objetivamente o torneio, a lógica já previa os meus 100%, pois a diferença de rating entre eu e meus adversários era bastante grande, posto que estávamos jogando na segunda divisão. Mas favoritismo não ganha jogo de jeito nenhum e eu tive que demonstrar no tabuleiro a minha superioridade. Acredito que isso eu tenha feito muito bem.


A equipe campeã e as gêmeas Kate e Kelly da equipe feminina.

Kelly!

Após a cerimônia de premiação a equipe campeã foi comemorar na piscina do clube. Eu realmente não esperava que tivesse três metros de profundidade.




Finalizando, gostaria de deixar um agradecimento todo especial para a minha namorada. Pela força e confiança - sempre! Te amo, linda.




sexta-feira, 24 de junho de 2011

El paso al final



Capablanca é conhecido principalmente pela sua maestria nos finais de partida. Ele era capaz de detectar os mais importantes elementos da posição e, dessa forma, escolher o melhor plano possível ou forçar o final sem correr maiores riscos. No entanto, numa análise mais profunda, é possível perceber que o que de fato dava a ele a possibilidade de jogar bem seus finais era a iniciativa, mesmo que pequena, com a qual ele costumava chegar a essa fase do jogo. Essa sua característica brilhante deu a ele a fama de vencer as partidas de forma natural e sem grandes sobressaltos, o que causava pânico aos seus adversários.

A passagem para o final é um tema importantíssimo a ser discutido e analisado profundamente por aqueles jogadores que se dedicam a aumentar o nível de jogo e não sabem por onde começar, pois não conseguem definir onde fica o seu próprio "calcanhar de Aquiles". Uns pensam que seu problema está na abertura, Tenho um péssimo repertório, dizem. Outros pensam que está no final, Preciso urgente estudar final, dizem esses por sua vez. No entanto, o que eu pude perceber por experiência própria e na conversa com diversos alunos, é que a formulação do plano de jogo é o que mais prejudica as escolhas durante uma partida. Isto é, ao não perceberem as demandas de uma determinada posição é lógico que não irão escolher bons planos e, por consequência, realizarão maus lances. É comum no xadrez o ditado "melhor um plano ruim do que plano nenhum", podemos ampliar essa compreensão ao afirmar "melhor um plano bom, do que um plano ruim". Para isso é preciso muito trabalho e o estudo da passagem do meio-jogo para o final pode prestar fundamental auxílio.

A posição de meio jogo mostrada abaixo foi jogada na última rodada da final do campeonato gaúcho de 2008, entre Felipe Menna Barreto e Darlan Veit - portanto, por assim dizer, essa foi a partida que decidiu o título. Nessa partida a passagem para o final se mostrou de forma decisiva e não somente o final em si como muitos poderiam avaliar.


Não é difícil perceber que as brancas estão com uma posição muito mais confortável. O rei no centro não consegue segura morada nem na ala do rei e nem na ala da dama e o peão débil de d6 sofrendo pressão constante são as principais dificuldades com as quais o preto tem que lidar. No entanto, apesar disso tudo, não se vê uma forma clara e imediata para o branco conseguir uma vantagem decisiva, embora possamos elaborar pelo menos dois planos básicos:

1. ataque direto ao rei no centro, mas com algumas dificuldades técnicas como no caso de: 1. Cd5+ Cxd5 2. exd5 Dxc4 3. Bxg5+ Rd7 (3. ... hxg5 4. Tac1 vencendo facilmente depois de 5. Dxg5+ e 6. dxe6+) 4. Bxh6? Dd5! 5. Tac1 (5. Dxd5 Tc2+ com empate garantido) 5. ... Dh4 e agora é o rei branco que corre alguns perigos.

Claro que ao invés de 4. Bxh6? as brancas podem jogar simplesmente 4. Tac1 Dxa2 4.Dd4, mantendo todas as vantagens de sua posição, apesar de 4. Cc5 ainda dar ao negro boas possibilidades práticas na partida.

Não é nada fácil avaliar essas variantes no calor da partida (sem esquecer que essa partida valia o título), ainda mais quando está em jogo o sacríficio do peão de c4 e logo depois sacrifício de peça em g5, o que definitivamente não vai muito com o estilo do Felipe. Portanto, é de se esperar que ele tenha escolhido uma forma mais pacífica e menos comprometedora de levar a sua posição para um final com uma pequena, porém segura iniciativa.

2. jogo seguro, porém energético: essa energia consiste em segurar a posição fazendo sempre lances que explorem a deficiência da colocação das peças adversárias, além de punir severamente a falta de energia dos lances do oponente como no caso da presente partida. Seguindo essa linha Felipe tomou o cavalo de d5 após 1. Cd5+ Cxd5 com o peão de "c" e não com o peão de "e". 2. cxd5 agora o ataque direto ao rei não é mais possível e se inicia a passagem para o final. 2. ... Dc2 3. Tac1 as trocas de peças sem dúvidas aliviaram a pressão sobre o rei preto, mas é preciso avaliar com cuidado os novos aspectos da posição de final que está prestes a surgir.

3. ... Rd7? avaliando-se com precisão esses novos aspectos, com certeza esse erro poderia ter sido evitado. Era necessário mais do que nunca que o cavalo entrasse em jogo 3. ... Cc5, aproximando-se bastante do empate e evitando a futura triste má colocação desse cavalo. 4. b4! privando o cavalo das casas a5 e c5, setenciando-o à passividade. É importante notar também o papel que exerce o peão em d5 ao controlar as casas c6 e e6, restringindo mais ainda os movimentos do cavalo. 4. ... b5 5. Txc8 Txc8 6. Tc1 as brancas buscam as trocas a todo custo, a fim de reduzir o material, deixando somente as peças que causam desequilíbrio na posição, ou seja, o bispo branco e o cavalo negro. 6. ... Txc1 7. Bxc1 exd5 8. exd5


Em tese, explorar uma fraqueza só não vence jogo, é preciso mais de uma para poder descoordenar as forças do adversário. Portanto, o plano do branco a partir daqui é em essência bem mais simples: criar uma fraqueza na ala do rei para explorá-la juntamente com a falta de casas do cavalo negro.

8. ... f5?! era necessário manter a estrutura na ala do rei com 8. ... f6 por exemplo. Agora a tarefa do branco se torna mais fácil. 9. h4 gxh4 10. Bxh6 hxg3 11. Rxg3 o alvo foi criado em f5 e o rei branco poderá penetrar. O resto é fácil. 11. ... Re7 12. Bg5+ Rf7 13. Rf4 Rg6 14. a3 a5 15. Be7 a4 16. Bg5


As negras se encontram irremediavelmente em Zug, mas resolveram, em todo o caso, jogar mais alguns lances. 16. ... Rg7 17. Rxf5 Rf7 18. f4 Rf8 19. Re6 Re8 20. f5 1-0



Para finalizar deixo para a apreciação de todos uma tradução feita por mim de uma pequena parte do livro mostrado logo no início dessa postagem. O trecho escolhido faz parte da conclusão do primeiro capítulo intitulado "Pasamos al final?" (pag. 23 e 24). Essa conclusão vem logo após os autores terem analisado uma bela partida conduzida por Keres de pretas contra Reshevski. Boa leitura.

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Depois de analisar este final, executado com habilidade pelas negras, o leitor se perguntará: mas, por acaso poderiam, mesmo enxadristas tão destacados como Keres e Reshevisk, prever (e calcular!) todos os pormenores do final surgido? Claro que não! Aqui falamos de uma minuciosa compreensão das particularidades ao avaliar uma posição no final. Para tal avaliação se utilizam os seguintes critérios básicos: a respectiva posição das peças (sua atividade comparativa); a posição dos reis, a possibilidade de sua rápida centralização (destaquemos que os finais de peças pesadas podem ser uma excessão); por último, a posição dos peões (a presença de peões passados ou a possibilidade de obtê-los). Para se aperfeiçoar e se desenvolver rapidamente, um enxadrista qualificado deve aprender a solucionar corretamente as questões que se apresentam durante a passagem ao final, pois essa transição é um dos momentos primordiais para aproveitar a vantagem existente.

A. Alekhine, mestre do jogo combinativo, escreveu na observação de uma partida: “cada enxadrista deve tratar de solucionar o problema de vencer sem temer as trocas. A complicação da posição é uma medida extrema que deve adotar-se somente quando o enxadrista não encontra um plano claro e lógico a seguir”.

Por outro lado, o mesmo processo – a passagem ao final – é utilizado com frequência para se obter objetivos contrários: para salvar ou defender uma posição difícil. Para isso é necessário prever e detectar, já durante o meio-jogo, as possibilidades de empate que pode conter o futuro final.

É evidente que isso requer sérios conhecimentos teóricos dos finais e com o desenvolvimento da teoria do xadrez, muitas posições técnicas se converteram em posições que não requerem avaliação e cálculos especiais, pois devem ser conhecidas simplesmente de memória. J. R. Capablanca, dizia: “Pode-se analisar o final separadamente das demais fases, mas não se pode estudar nunca o meio jogo independente do final. Tampouco pode-se analisar a abertura por si só, mas sim, pelo contrário, sempre em conexão com os possíveis planos do meio jogo e final”.




quarta-feira, 22 de junho de 2011

Exercício VII


Tirei a posição abaixo de uma das partidas comentadas no famoso livro de Garry Kasparov O Teste do Tempo. Nessa partida Kasparov enfrentava Romanishin uma rodada após ter enfrentado pela primeira vez em sua carreira o então campeão mundial Anatoly Karpov, com o qual, anos mais tarde, viria a travar um dos embates mais intensos já vistos na história do xadrez. Kasparov coloca a culpa de seu baixo rendimento contra Romanishin nesse encontro prévio com o campeão mundial.

Kasparov sofreu nessa partida desde a abertura, tendo que suportar uma posição passiva o tempo todo. O diagrama abaixo mostra uma posição que na verdade não ocorreu de fato, ela é fruto da análise do seu lance 21 no qual ele coloca uma interrogação. Segundo Kasparov nessa posição as pretas são capazes de se segurar, tendo assim grandes possibilidades de conseguir o tão sonhado empate. Avaliando-se posicionalmente com certeza Kasparov tem toda a razão, no entanto, há um golpe tático que ele "não enxergou" (provavelmente não continuou a análise ao ver que a posição era empatativa).

Jogam as brancas - qual seria esse golpe tático não visto por Kasparov?


terça-feira, 21 de junho de 2011

III Etapa Circuito Gaúcho de Xadrez Rápido Morro Reuter - Vice-Campeão


Mais um bom torneio realizado pela FGX ao pé da Serra Gaúcha. Acordei cedaço da manhã, peguei um ônibus da Zona Norte de Porto Alegre até a rodoviária e, quando cheguei na plataforma de embarque, lá estavam o Lendário Rock in Rio, conhecido também por Airton Dias e o Veterano bigodudo Dirney Cantini, prontos para pegar o mesmo ônibus. A viagem foi muito agradável ao lado do amigo de Santa Maria Dirney, trocamos muitas idéias e eu tive o prazer de ouvir inúmeras histórias do Xadrez e seus personagens remotos que ele traz na ponta da língua.


Dirney Cantini 0 x 1 Eider Cruz
Morro Reuter, Junho de 2011

O campeão do torneio foi o Bi-campeão estadual Eduardo Munoa. Contra ele na quinta rodada joguei 1. e4 depois de muitos anos de 1.d4. Não tinha nada preparado, a decisão foi feita em cima da hora e mais para gerar surpresa do que qualquer outra coisa. Minha intenção era jogar o ataque inglês contra a Najdorf, mas joguei Be3 antes de f3, entrando em outra linha que, embora tem sido muito jogada, não consegui lembrar de nada teórico e nem sequer nenhuma partida que pudesse me clarear as idéias. No fim acabei aceitando desnecessariamente um ataque perigoso e acabei sucumbindo à iniciativa do preto sobre o meu rei na ala da dama.



Outra partida interessante que joguei no torneio foi contra o forte jogador de Caxias do Sul Gilberto Klein. Ele jogou de forma passiva a abertura. Eu fui aumentando minha vantagem de espaço gradualmente até ele cometer um grave erro (23. Bd6?) que me concede a vantagem decisiva do par de bispos com a qual pude confirmar a vitória depois de trocadas as damas.



Mais informações sobre o torneio e demais fotos no blog Recanto do Xadrez.

E infelizmente não foi divulgado novamente o Cross Table do torneio. Gostaria muito que a alguém me explicasse a razão disso.

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Há algo de estranho no Reino dos Pampas

Volto a esse assunto novamente (com muito desprazer) pois existem muitos jogadores que estão sendo prejudicados com esse frequente conflito de datas com o Circuito Oncosinos de Xadrez Clássico, embora apenas um deles, Iuri Pasini, tenha se pronunciado publicamente no grupo Xadrez Gaúcho do yahoo. São jogadores que participam dos torneios aqui no RS a muitos anos, décadas até, e que com certeza continuarão participando e fazendo o xadrez gaúcho de fato acontecer. Por esse motivo essa situação se torna ainda mais agravante, pois prejudica não só esses jogadores individualmente, mas o nosso xadrez de forma geral. Portanto, evitando essas colisões todos saem ganhando: federação, jogadores e também os patrocinadores que verão seus torneios mais frequentados por jogadores adultos de diversas regiões. Já que há muitas datas disponíveis, fica difícil não acreditar que essas colisões poderiam ser evitadas.

Para explicitar melhor fiz um pequeno esquema das datas conflitantes.

30 de Abril - Circuito Gaúcho de Xadrez Rápido - FGX - Dois Irmãos
30 de Abril e 1 de Maio - II
ETAPA do Circuito Oncosinos de Xadrez Clássico

04 de Junho - Campeonato Gaúcho Feminino de Xadrez 2011 - FGX
04 de Junho - Festival Gaúcho da Melhor Idade 2011 - FGX
04 e 05 de Junho - III ETAPA do Circuito Oncosinos de Xadrez Clássico

03 de Julho- Semifinal do Gaúcho Absoluto de Xadrez Região Metropolitana
Torneio Metropolitano - Dois Irmãos
02 e 03 de Julho - IV ETAPA do Circuito Oncosinos de Xadrez Clássico


Tenho certeza que excluindo-se essa situação indesejável, a FGX e os jogadores das diversas categorias levarão o Xadrez Gaúcho para tempos de muitas conquistas.

Aprendamos com o Raul.