quinta-feira, 4 de março de 2010

Torneio Festa da uva - Caxias do Sul


Neste sábado e domingo (6 e 7 de março) estarei jogando em Caxias do Sul o tradicional torneio da festa da uva. Essa edição promete ser a maior de todas, com a presença da maioria dos melhores GMs brasileiros e de GMs estrangeiros, com destaque todo especial para o Ucraniano Vassily Ivanchuk, um dos melhores jogadores do mundo em atividade e certamente um dos maiores gênio da história do xadrez. Ivanchuk tem permanecido desde 1988 entre os top players, vencendo, por exemplo, três vezes o torneio de Linares e alcançando diversas vezes o segundo melhor rating do mundo. Muitos dizem que seus nervos nos momentos decivos o impediram de ser um forte candidato ao título mundial.

Sou acostumado a seguir esse jogador pela internet e admirar seu jogo, principalmente porque não se sabe o que esperar dele. Suas atuações muitas vezes beiram ao sublime, mas em algumas ocasiões deixam muito a desejar. Na metade de 2009, depois de uma série de atuações ruins, foi parar em 30° no ranking mundial, mas logo recuperou o seu posto entre os top-10.

Poderemos presenciar as famosas excentricidade de Chucky, como também é chamado, tal como olhar para o teto ou para as paredes com olhar vago enquanto calcula as variantes, ou dobrar o cheque simbólico da premiação para caber no bolso. Para mim será uma grande felicidade poder vê-lo jogar de perto, já que uma chance dessa é muito rara aqui no Brasil.


Mequinho também jogará! E não preciso nem dizer que torço muito por ele. Em 2008, nesse mesmo torneio da festa da uva, ele foi o vice-campeão, mas na hora da premiação foi mais aplaudido do que o próprio campeão Rafael Leitão. Sinal da grande popularidade desse enxadrísta gaúcho e brasileiro que teve o terceiro melhor rating do mundo em 1977, atrás apenas de Karpov e Korchnoi. O que poucos sabem é que eu comecei a jogar xadrez graças a uma reportagem que o globo esporte fez sobre sua volta aos tabuleiros em 2000, depois de sua retirada do esporte por problemas de saúde. Logo depois que assisti à reportagem fui informado por um colega (na época estava na sétima série) que a professora de educação física do nosso colégio ensinava xadrez. Foi aí então que fui apresentado pela primeira vez a esse esporte-arte-ciência que hoje é parte indelével da minha vida.



Outras presenças ilustres confirmadas para o torneio são:

GM Ulf Anderson - Suécia
GM Giovani Vescovi - Brasil
GM Gilberto Milos - Brasil
GM Rafael Leitão - Brasil
GM André Diamant - Brasil
GM Andrés Rodrigues - Uruguai
GM Diego Flores - Argentina

Uma verdadeira constelação!

Maiores informações e folder confira AQUI.

Abraço a todos e hasta luego!

quarta-feira, 3 de março de 2010

III Cultura Open: 3° lugar


Encerrou-se mais uma edição do torneio da Livraria Cultura de Porto Alegre com um novo campeão. Cada edição teve o seu: o da primeira foi o MF Flávio Olivência, o da segunda o Felipe Menna Barreto e, dessa vez, foi o quase imbatível Eduardo Munoa. Eu novamente repeti a terceira colocação do II Cultura Open e, embora tenha ficado com um gostinho de quero mais, estou satisfeito com o resultado.


Foi a primeira vez nesses 10 anos de xadrez que pude experimentar a sensação de ser o primeiro tabuleiro de um torneio. Mas como rating não ganha jogo, fui ultrapassado pelos colegas Munoa e Felipe na parte final do torneio, depois de na quinta rodada ter sido o líder isolado com 5 pontos em 5 partidas.


Merece destaque especial a quantidade de pessoas interessadas em jogar e em observar as partidas (teve gente até filmando os jogos das primeiras mesas lance a lance). As 70 vagas para o torneio foram preenchidas tão logo foram abertas as inscrições e, depois disso, se deu ainda mais 60 jogadores na lista de espera. Isso mostra o grande sucesso do evento e o acolhimento da idéia pela comunidade enxadrística e do público em geral.


Quero deixar aqui meus parabéns para a organização do evento e aos apoiadores pelo empenho e dedicação para que o torneio fosse realizado. Estou aguardando ansioso para jogar o IV Cultura Open.


Fotos e resultados completos:

Mais informações:

Próxima parada agora é em Caxias no tradicional torneio da festa da uva. O torneio promete ser um dos maiores eventos dos últimos tempos no Brasil, com a presença de vários GMs brasileiros e estrangeiros. Aos que vão, até lá!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Eider Cruz x Rafael Santos - I Cultura open


O III cultura open acontece amanhã na livraria cultura de Porto alegre, como já foi dito nesse blog. Visto essa proximidade, aproveito para deixar aqui uma das minhas partidas jogadas no I Cultura Open. Como a partida é de 21 minutos, é de se esperar que contenha mais erros do que o normal. Mas isso é detalhe, pois o erro faz parte do xadrez, por mais que tentemos evitá-lo. Como muito bem disse Tartakower: "Se o erro não existisse, deveria ser inventado".
Achei interessante a partida pelo ataque iniciado pelas brancas na ala da dama com o apoio dos dois cavalos situados à beira do tabuleiro, em a4 e a5. Quem disse que cavalo na beira é besteira?

1.d4 Cf6 2.c4 g6 3.Cc3 Bg7 4.e4 d6 5.f3 c6 6.Be3 Cbd7 7.Dd2 a6 8.Cge2 b5 9.Cc1 O normal é Cg3. 9...Dc7 10.Bd3 0–0 11.0–0 e5 12.d5 bxc4 13.Bxc4 c5 Com esse lance as negras fecham o centro e tem a idéia de torná-lo estável para levar adiante o seu ataque clássico da índia do rei com f5 depois da retirada do cavalo de f6: fazendo pressão no centro adversário e abrindo linhas para a torre na coluna f. Do outro lado as brancas iniciam um ataque na ala da dama negra debilitada. Qual será o ataque mais promissor?

14.Cb3 Ce8 Melhor era 15. Ch5, já fazendo pressão sobre a ala do rei branca. 15.Ca4 Dd8 Segundo meu adversário no final da partida, esse lance tinha a intenção de levar sua dama para ala do rei, pois é lá que se darão suas operações. Ele não percebeu o eminente perigo que se avizinhava de sua ala da dama. Ao invés de 15. ... Dd8 é necessário 15. ... Tb8 e se 16. Ca5, então 16. ...Tb4 ganha peça.
16.Ca5 Esse lance agora é muito forte, pois ameaça uma invasão imediata em c6, no coração da posição inimiga. Dá pra se notar que a máxima "cavalo na beira é besteira" não tem vez nessa posição.


16...Cb8
Também era possível 16. ... Cb6 buscando alguma troca com o intuito de aliviar a pressão, mas após 17. Cxb6 Dxb6 18. Tab1 as brancas mantêm sua boa iniciativa na ala da dama.
17.b4 Bd7 18.Bb3 Uma linha muito interessante é: 18. Cxc5 dxc5 19. bxc5 Bb5 20. a4 Bxc4 21. Cxc4 f5 22. d6 com grande vantagem para as brancas. Veja a triste passividade das peças negras...

18...cxb4 19.Bb6 19. Dxb4 é melhor. Guardando a casa b6 para o cavalo. 19...Dh4 20.Dxb4 Bb5 21.Tfc1 Um pequeno erro, pois permite que as negras desenvolvam melhor sua ala da dama com ganho de tempo em cima do bispo de b6 (mas um inconveniente do lance 19 branco. Melhor era 19. Bf2, retirando o bispo e ganhando tempo atacando a dama adversária.

21...Bh6 Permite a decisiva invasão da torre. 21. ... Cd7 é necessário. 22.Bf2 De7 22. ... Dd8 Cb6 é ainda pior para as negras. 23.Cb6 Bxc1 24.Txc1 Dg5 25.Tc8 Ta7 26.Txb8 Tc7 27.Cac4 Bxc4 28.Cxc4 Dc1+ 29.Be1 a5 30.Dc3 Fiquei com medo da invasão da dama e da torre negra, por isso evitei o que agora vejo ser melhor 30. Cxa5 De3+ 31. Rf1 Tc1 quando as brancas manteriam grande vantagem.

30...Dxc3 31.Bxc3 a4 32.Ba5 Embora esse lance ainda mantenha as brancas com uma certa vantagem, era melhor 32. Bxa4 Txc4 33. Bb4 Cc7 34. Txf8 Rxf8 35. Bxd6+ Mas, claro, essa linha era muito difícil de calcular na partida e ter certeza que o par de bispos garantiria a vitória contra o cavalo e a torre, ainda mais com pouco tempo de reflexão. 32...Tc5 Esse lance realmente é perdedor. Era necessário 32. ... axb3 e se então 33. Bxc7 bxa2 34. Ta8 Cxc7 35. Txa2 as negras mantem as perspectivas de empate.

33.Bxa4 Txc4 34.Bxe8 f5 Agora a vantagem branca está bem clara e a vitória foi conquistada alguns lances depois. 1–0


domingo, 21 de fevereiro de 2010

Tabuleiro de xadrez para principiantes...

Quem não lembra da famosa invenção do Kiko?
Você pensou que era só uma piada? Está ai a prova de que ele existe:


sábado, 20 de fevereiro de 2010

Eider Cruz x Acyr Calçado - Regional Sul 2009

Apesar de ainda não ter recebido a premiação devida, felizmente o Regional Sul teve seus bons momentos e pude jogar boas partidas, além de completar o bloco que faltava para ter meu rating FIDE. Meu rating de 2185 saiu na lista de janeiro e já vou poder estrear ele no torneio da livraria cultura. Mas vamos para o jogo:


1.d4 Cf6 2.c4 e6 3.Cf3 b6 4.g3 Ba6 5.b3 Bb4+ 6.Bd2 Be7 7.Bg2 Bb7 8.0–0 0–0 9.Bf4
Mais comum aqui é 9. Cc3 ou 9. Bc3. 9...d5 10.Cbd2 Melhor é 10. Cc3, não dando margem para a perigosa expansão da ala do rei negra. 10...Ch5 11.Tc1



Na partida, senti que tinha jogado lances fracos na abertura. Por isso, busquei por planos que pelo menos justificassem 9. Bf4 e 10. Cbd2. A idéia de 11. Tc1 é justamente garantir um jogo forte pela coluna c e se 11. ... Cxf4 12. gxf4 aliar o domínio da coluna à posse de e5. Mas com 12. ... Cc6 13. e3 Ba3 14. Ta1 f6 as negras obtêm jogo bastante cômodo.

11...g5?! Acredito que o inconveniente desse lance é ter iniciado um ataque de ala sem garantir suficientemente a segurança do centro e o desenvolvimento da ala da dama. Deve ser por isso que o fritz prefere a linha citada acima ou até mesmo 11. ... Cc6 direto.

12.Be3 f5 13.cxd5 f4
Outras continuações também seriam insuficientes:
13. ... exd5? 14. Cxg5! Bxg5 15. Bxg5 Dxg5 16. Txc7. Com boa vantagem para as brancas graça ao bispão de g2 que ameaça capturar d5 com cheque depois da eliminação do bispo negro de b7.
Ou 13. ... Bxd5 14. Cb1 f4 15. Bd2 com possibilidades iguais.

14.dxe6 fxe3 15.fxe3



A partida chegou num momento crítico. Segundo o computador essa posição está balanceada, mas, humanamente falando, essa posição está pra lá de complicada. As brancas sacrificaram uma peça, mas em troca possuem um forte centro que lhes garante maior mobilidade, além de melhor desenvolvimento (veja a dificuldade do cavalo negro de b8 de entrar em jogo) e posse da coluna c. Dito isso, o plano das negras poderia ser traçado da seguinte maneira: destruir o centro adversário e desenvolver suas peças da ala da dama. Para isso é necessário jogar 15. ... c5 colocando imediatamente pressão no centro branco com a ameaça de g4 e, logo depois, desenvolver seu cavalo via c6. Por exemplo, 16. Dc2 Cc6. O próximo lance negro visa detonar rápido com o peão de e6 que, além de estar restringindo um desenvolvimento tranquilo do cavalo de b8, pode ser tornar perigoso. O lado negativo desse lance é que ele não desenvolve e não incomoda o centro adversário, dando tempo para que o branco comece suas ações.

15...Cg7?! 16.Dc2 Ataca c7 e ameaça 17. Cxg5. 16... Cxe6? Esse provavelmente é o lance perdedor. Era necessário mais uma vez um lance de desenvolvimento 17. Cc6. Mantendo o status quo e esperando que sua peça a mais, mais cedo ou mais tarde, faça a diferença. 17.Cxg5 Bxg5 18.Bxb7 Bxe3+ 19.Rg2 Cd7

Finalmente o cavalo sai da toca, mas agora já é um pouco tarde... 20.De4 20. Bd5 é ainda mais forte, preservando o forte bispo e mantendo a ameça de De4 seguida da invação da sétima da torre por c7. 20... Cf4+ 20. ... Bxd2 21. Dxe6+ Th8 22. Tc2 +- 21.gxf4 Bxd2 22.Tc2 Bb4 23.Bxa8 Dxa8 24.Dxa8 Txa8 25.Txc7 Cf6 26.Tf3 Te8 27.Tg3+ Rh8 28.Tgg7 Bf8 29.Tgf7 As negras se renderam no lance 46. 1–0

No blog do Disconzi tem algumas impressões do próprio Acyr Calçado sobre essa partida, eis o link para a postagem: http://rodrigodisconzi.blogspot.com/2009/10/regional-sul-2.html


Regional Sul 2009 - Premiação

Tenho recebido alguns e-mails de amigos perguntando sobre minha premiação do Regional Sul 2009. Por essa razão achei por bem escrever esta nota pública para esclarecer a atual situação e evitar a criação de boatos:
É com tristeza que confirmo a informação de que recebi um cheque sem fundos da FGX de 300 reais referente à premiação de 8° lugar no Regional Sul de 2009 e que até agora, quase quatro meses depois, não foi quitado. Assim como eu, outros jogadores também receberam, dentre os quais o campeão gaúcho de 2008 Felipe Menna Barreto.
O que está em jogo não é apenas o valor em si (embora faça falta, pois vida de bolsista da UFRGS não é mole), mas a credibilidade de uma instituição que representa todos os enxadristas gaúchos.
Sem mais.

Eider Cruz

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Exercício II

As negras acabaram de jogar 32. ... C(c8)xd6 capturando o cavalo branco que se encontrava alojado em d6. Qual lance você faria em resposta? Por quê?
Deixe sua resposta nos comentários.


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

III Cultura Open de xadrez

Conforme folder abaixo, será realizado no dia 27 de fevereiro o III Cultura Open de xadrez. O torneio será realizado dentro das dependências da livraria Cultura no Bourboun Country. O ambiente, em meio aos livros, é agradável para a prática do jogo, além de ser um local estratégico para fomentar a prática do xadrez em Porto Alegre, pois a livraria é bastante visitada, o que dá visibilidade ao nosso nobre esporte que normalmente tem seus torneios realizados em salões fechados.

Local dos jogos

O campeão do I Cultura Open foi o MF Flavio Olivência e do II foi o então Campeão Gaúcho Felipe Menna Barreto. No primeiro torneio eu fiquei em 11° lugar 3,5 em cinco rodadas, tendo perdido uma partida para o Vitinho, empatado uma e ganho as outras três. Nesse torneio tivemos os três primeiros colocados com 4,5, portanto o campeão teve de ser definido pelos critérios de desempate. Isso aconteceu porque o torneio teve apenas cinco rodadas para 57 participantes. Já o segundo torneio foi realizado em sete rodadas e fiquei com a terceira colocação tendo perdido para o Orguim que ficou em segundo, empatado com o campeão do torneio Felipe Menna Barreto e ganho as outras cinco.

MF Flavio Olivência jogando lado a lado com Felipe Menna Barreto no I Cultura Open.


DATA: 27 de Fevereiro 2010III_Cultura_Open_de_Xadrez.JPG
LOCAL: Livraria Cultura - Bourboun Country - Porto Alegre - Loja 302 Av. Túlio de Rose, 80
EMPARCEIRAMENTO: Sistema suíço de emparceiramento em 7 rodadas.
REFLEXÃO: 15min KO
CRITÉRIOS DE DESEMPATE: Milésimos medianos, Milésimos totais, Escore progressivo, Número de Vitórias
ARBITRAGEM: AR Marcelo Konrath
20036827.jpg
PREMIAÇÃO:
Campeão: Troféu + Vale-presente no valor de R$ 200,00
2º lugar: Troféu + Vale-presente no valor de R$ 100,00
3º lugar: Troféu + Vale-presente no valor de R$ 80,00
4º a 10 lugar: Medalhas

Categorias:
Sub 12: Medalhas para 1º, 2º e 3º lugares
Sub 18: Medalhas para 1º, 2º e 3º lugares

Sorteio de Brindes: Camisetas do evento e Anuidades do IXC - http://www.ixc.com.br/

INSCRIÇÕES:

•a partir do dia 15 de fevereiro
•nos e-mails: eventos.xadrez@livrariacultura.com.br ou eventos.xadrez@gmail.com
•limitadas a 70 enxadristas

Fonte: http://xadrezgaucho.wikispaces.com/2010-IIICulturaOpen-POA

Informações necessárias para inscrição:
• Nome completo
• Data Nascimento
• Cidade
• Telefone
• Email
• Rating CBX / FIDE (se houver)

RelogioXadrez.jpgMATERIAL: Os enxadristas deverão trazer jogos de peças e relógio




PROGRAMAÇÃO:
27 de Fevereiro - A Livraria Cultura abre suas portas às 10h da manhã
Exposição de tabuleiro e peças gigantes da ONG Embrião no shopping, proximo à loja com banner do evento
Início da confirmação das inscrições - 13h
1a rodada - 14h
2a rodada - 14h40
3a rodada - 15h20
4a rodada - 16h00 - Palestra da ONG Embrião e seu projeto de Educação Ambiental e Xadrez (30min de duração)
5a rodada - 16h40
6a rodada - 17h20
7a rodada - 18h00
Sorteios de brindes - 19h
Premiação e encerramento - 19h20

Exercício I

Jogam as Brancas. Qual a melhor continuação?
Deixe sua resposta nos comentários.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Revoluções enxadrísticas - Parte I

Nesta série de textos que pretendo publicar aqui no blog, irei abordar as principais revoluções dos conceitos estratégicos e ideais de jogo pelas quais o mundo do xadrez passou, ressaltando aspectos do contexto histórico de cada época. Os assuntos não seguirão a ordem cronológica da história do xadrez, podendo a parte II abordar qualquer outra revolução, mesmo que anterior ao xadrez hipermoderno. E, por último, os textos aqui publicados não são definitivos. Novas idéias e novas abordagens podem surgir para tornar os textos mais completos, pois ainda há muito que ler e pesquisar sobre a história do xadrez e os reflexos de suas idéias dentro e fora do tabuleiro. Desejo a todos uma boa leitura.


Uma abordagem histórica do surgimento do xadrez Hipermoderno


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce c
anto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.


Luís Vaz de Camões


Assim também é o xadrez que acompanha a humanidade da forma que o conhecemos hoje desde o século VI. De tempo em tempo mudam-se os conceitos, a visão e o ideal de jogo. E o jogo muda não só pela evolução do pensamento enxadrístico, mas também - e me arrisco a dizer que principalmente - pelas mudanças históricas e sociais ocorridas no decorrer dos séculos. O xadrez, assim como a literatura, não está alheio ao mundo que o circunda, antes é constantemente influenciado por ele e o influencia com o seu poder metafórico conhecido até mesmo por aqueles que não conhecem sequer os movimentos das peças.

"Um jogo complicado nas areias do deserto em 1991."
O poder metafórico do xadrez é amplamente utilizado em charges políticas.

Os conceitos do xadrez mudaram consideravelmente do século XIX para o XX, acompanhando as vanguardas revolucionárias que surgiram nessa época nas artes, nas ciências, na música. Essas vanguardas surgiram com maior intensidade após a primeira guerra mundial, que teve para a Europa resultado desastroso. A guerra, que a princípio era para ser breve, estendeu-se por longos quatro anos. Boa parte da luta passou-se nas trincheiras, onde centenas de soldados morriam todos os dias numa verdadeira carnificina. Ao final, o mundo se deparou com a falência de seus valores morais e religiosos. Nada conseguia explicar o que havia acontecido, nem mesmo a filosofia. O que se deu então foi a negação da cultura patrocinadora desse massacre. Em vista disso, uma nova arte era necessária: uma arte que rompesse com os padrões e princípios de então. A conseqüência foi o surgimento das inúmeras vanguardas em diversas partes do mundo. No xadrez a vanguarda ficou conhecida como hipermodernismo.


"Posição crítica no tabuleiro de xadrez europeu."


Os novos jogadores que surgiram com essa escola, traziam idéias que faziam total contraste com o ideal de jogo em voga na época. Uma delas é o controle do centro a distância. Até então, nas teorias de abertura, vigorava a idéia de que o centro do tabuleiro deveria ser ocupado por peões, por serem as peças de mais fácil manutenção, ou seja, não precisam se esquivar de ataques, pois basta defendê-los com eficiência. Uma estrutura forte de peões no centro garante maior espaço e, dessa forma, maior mobilidade para as peças. Com maior mobilidade de forças um ataque promissor pode ser iniciado. No entanto, com o advento do xadrez hipermoderno, liderado por Aaron Nimzowitsch, surgiu a idéia de que o centro pode ser controlado não só por peões, mas também a distância por peças.

Sabemos que o xadrez é essencialmente um jogo de guerra. Dois exércitos opositores lutam para conquistar espaço e adentrar o território do inimigo, ansiando a eliminação do reino adversário, simbolizado pela captura do rei: o xeque-mate. É, portanto, de se esperar que as mudanças na forma de guerra que ocorrem no mundo, influenciem de sobremaneira nas 64 casas do tabuleiro de xadrez. Podemos dizer que foi assim quando foram introduzidas armas de longo alcance, no início do século XX, capazes de acertar um alvo a 100km de distância nas sangrentas batalhas da primeira guerra mundial: o bispo fianquetado passou a funcionar como um míssil em direção ao centro do tabuleiro.

Uma defesa, introduzida pelos hipermodernos, em que podemos ver com clareza uma estratégia já utilizada em guerras históricas é a Defesa Alekhine. Nela o negro deliberadamente permite ao branco construir um forte centro de peões, criando a sensação no condutor das peças brancas de que possui grande vantagem de espaço por controlar as casas vitais do centro, ao mesmo tempo em que controla casas avançadas do campo inimigo.



Defesa alekhine
Posição após 1. e4 Cf6 2. e5 Cd5 3. c4 Cb6 4. d4


Na verdade o negro está tramando um ardiloso contra-ataque à cadeia de peões adversários com a intenção de criar fraquezas permanentes em sua estrutura. Essa estratégia é semelhante àquela utilizada duas vezes pelos russos, a primeira contra o poderoso exército francês de Napoleão Bonaparte, que era inclusive um comandante amante do xadrez, mas naquela época - infelizmente para ele - não se tinha conhecimento da defesa Alekhine. E a segunda contra o exército alemão de Hitler, mas dessa vez foi por puro desconhecimento de causa, pois Alekhine, nessa época, já tinha apresentado ao mundo sua defesa. Os russos permitem que seus adversários invadam seu território e recuam deixando no caminho dos soldados inimigos somente destruição, queimando as colheitas e as habitações. Então, os invasores se veem sem vilarejos para saquear e a comida se torna cada vez mais escassa. Com o acréscimo do inverno a situação se torna ainda mais caótica e os combatentes morrem de fome e de frio, entre outros males. Podemos constatar em conclusão que os russos deram uma grande lição nos seus adversários, utilizando a Defesa Alekhine.

E já que estamos falando de aspectos bélicos do jogo de xadrez, vale a pena indicar um artigo de autoria do enxadrista de Curitiba Sr. Henrique Marinho, no qual ele compara a formação militar Hedgehog (ouriço) com a estrutura de peões a6, b6, d6, e6 com a coluna "c" semi-aberta. Segundo Marinho, essa configuração pode ser originada da Abertura inglesa - Variante simétrica, da defesa siciliana - Variante Maroczy, de uma catalã ou de uma índia da dama, mudando somente a posição dos peões brancos, pois os peões negros permanecem na estrutura acima citada. Nessa posição o branco se encontra com mais espaço, restringindo as peças negras. No entanto a estrutura negra é bastante sólida e nela se esconde um grande potencial de contra-ataque. O texto é recheado de detalhes filosóficos que o deixam ainda mais interessante. Confira o artigo no link: http://www.cxc.org.br/arquivos/Hedgehog.pdf

Outra mudança fundamental introduzida pelo xadrez hipermoderno, além do já citado controle do centro a distância, foi a de que cada posição possui suas características próprias e, portanto, devem ser analisadas individualmente, longe dos preceitos rígidos e conservadores preconizados por Stenitz e seguidos a risca pela maioria dos jogadores de elite da época. "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" como diz Camões em seu soneto. Os tempos mudaram e novas necessidades surgiram junto com novas idéias. Muitos jogadores como Tarrasch, seguidores de Stenitz, ficavam apavorados com a forma de jogo dos hipermodernos Nimzowitsch, Grunfeld, Samisch, Reti, entre outros. Tentavam rechaçar suas idéias de forma veemente e mordaz, assim como os adeptos dos novos tempos repudiavam as idéias ortodoxas em atitude iconoclasta (qualquer semelhança com a semana de Arte Moderna de 22 no Brasil não é mera coincidência). No entanto, Alekhine, ao vencer o Cubano José Raul Capablanca em 1927, sacramentou a vitória do xadrez hipermoderno.

Depois do surgimento do xadrez hipermoderno, a próxima grande revolução no mundo do xadrez ocorrerá com o aparecimento do fenômeno Estadunidense Robert James Fisher que tomou dos russos a posse da coroa de campeão mundial em meios a guerra fria em 1972, mas que depois passa a coroa para Anatoli Karpov sem jogar e desaparece do cenário enxadrístico internacional. Bobby Fisher assombrou o mundo ao derrotar a máquina de xadrez soviética com um xadrez em que o poder da iniciativa tinha papel fundamental... Mas esse assunto fica para um futuro post.


Referências:

SHENK, David. O jogo imortal. Jorge Zahar Ed. Rio de Janeiro, 2007.

NIMZOVITSCH, Aaron. Meu Sistema. Ed. Solis. Santana da Paraíba - São Paulo, 2007.

PEREIRA, Ernesto Luiz de Assis. O centro e a natureza da luta no xadrez. in: 64.233.163.132/search?q=cache:EifkGE28n1sJ:www.cxc.org.br/arquivos/CONTROLE.doc+o+centro+e+a+luta+xadrez&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br Acesso em: 11 de Janeiro de 2010.

PÉCHINÉ, Jean Michel. Chess is a war game. in: www.chessbase.com/columns/column.asp?pid=166. Acesso em 12 de janeiro de 2010.

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. Ed. Cultrix. 1997